julho 25, 2022

"Dê" Time

Dê tempo ao tempo
E tudo irá acontecer
Como tudo está predestinado
E não podemos prever?
Essa pergunta me aflige

Nós não temos escolha
Ou essas escolhas não são nossas?
Quem nos faz escolher?
É como se nossa vida fosse uma eterna aposta

Não podemos prever
Mas aquilo que acontece
Sempre iria acontecer
Independente de nossas escolhas

As vezes me pergunto:
“Se eu apostasse no número errado,
O que garante que eu ganharia?
Se os ganhadores são sempre os mesmos
Porque eu ainda tentaria?”

Tudo é uma questão de sorte
Ou estávamos predestinados a fracassar?
As minhas escolhas são ruins
Ou eu estava predestinado a errar?

Enquanto não prevermos o futuro
Não saberemos as respostas
Mas e se soubéssemos as respostas
E isso também fosse predestinado?
Melhor continuarmos nas apostas

Aposte no amor
Aposte na vida
Aposte na felicidade
O que for pra ser, sempre será.

[Dom Juan]

julho 15, 2022

O Corretor

 Por: Juan Sousa

Sentei-me próximo a janela que ficava virada para o cruzamento. Gostava de tomar meu café enquanto observava as pessoas passando na rua. Daquela janela já tinha presenciado muitas coisas. Desde casais loucamente apaixonados a assassinatos. Aquele beco sempre reservava surpresas.

     Naquela manhã em especial nada de interessante aconteceu. Tomei meu café com um misto quente. O melhor da cidade, sem dúvidas. E depois segui para o centro, onde trabalhava. Aqueles arranha-céus gigantescos por onde passava todos os dias hoje me pareciam comuns. Diferente de quando cheguei na cidade, acreditando que eu poderia mudar o mundo.

     Sou de uma cidade pequena, e querendo ou não, quando chegamos na cidade grande, sentimos o baque cultural. As pessoas aqui são mais frias, apesar de tentarem não ser. Todo mundo te estende a mão, mas sempre querendo algo em troca. Sabe aquele sentimento de “não confie em ninguém”? Você acaba criando depois de um tempo.

     Um dia ao sair do trabalho esbarrei em uma moça. Ela disse estar perdida na cidade, não sabia onde estava nem como chegava no hotel em que estava hospedada. Eu pedi desculpas e disse que não podia ajudá-la. Meses atrás saiu nos jornais que golpes assim estavam acontecendo. Infelizmente posso estar negando ajuda a alguém que realmente precisa por conta de alguns desgraçados que tiram proveito da bondade das pessoas. Demorei mas consegui me adaptar a esse sistema.

     Ao chegar no trabalho encontrei com meu superior no elevador. Ao cumprimenta-lo ele já veio com as cobranças diárias.

     - Victor, não sei bem o porquê veio mais cedo hoje mas parece que estava adivinhando. Preciso que faça um serviço para mim. Um homem se atirou da ponte, preciso que cuide do caso. O seguro dele vai para a família. Ele tem mulher e filha, e você sabe muito bem que eu não gosto de dar esse tipo de notícia.

     Quem gostava, não é mesmo? Esse desgraçado só pode ter problemas. Minha vontade era de mandar ele ir catar coquinho.

     - Sem problemas patrão, estou as suas ordens. Mas preciso sair pelo menos na mesma hora de sempre. Tenho um compromisso hoje à noite.

     - Você tem um compromisso com essa firma também, Victor. Lembre-se disso. Fui eu quem colocou você aqui dentro.

     O desgraçado adorava jogar na minha cara. E antes de eu ter tempo de responde-lo a porta do elevador abriu e ele saiu apressadamente.

     Eu trabalhava em uma agência de seguros. Normalmente cuidava do setor imobiliário. Porém meu superior adorava me incumbir de outras funções. Passei na copa e já peguei uma xícara de café. Nossa, como eu adorava café!

     Após pegar o endereço do homem que havia se suicidado com a secretária do chefe, passei na minha sala para deixar meu casaco e logo parti para resolver o B.O. Quanto mais cedo eu fizer isso, mais cedo eu consigo sair do trabalho.

     O sujeito tinha 35 anos. Era bombeiro militar, tinha bons antecedentes, não apresentava nenhum problema psicológico, não havia relatado nenhum tipo de problema que vinha sofrendo... O motivo do suicídio era um mistério. Mas isso também não é da minha alçada. Precisava apenas pegar as assinaturas da mulher do sujeito e levar até o banco para a transferência dos valores.

     Ao chegar na casa dele, a esposa me recebeu com um olhar de tristeza profunda. Me contou que não dormiu mais do que 2 horas por noite depois do ocorrido, e que sua filha passara a maior parte do tempo com os pais do falecido marido.  Ela não estava com condições de cuidar da menina. E apesar de não ser da minha alçada, não tinha como não se solidarizar com a situação. Perder um ente tão próximo assim deve ser um baque psicológico muito grande.

     Enquanto ela me servia uma xícara de café perguntei se já tinha procurado ajuda psicológica.

     - Sim, logo após o acontecimento eu busquei ajuda. Mas você sabe como é. Leva um tempo até nos adaptarmos com a ideia. E apesar da ajuda profissional, nós temos que nos curar sozinhos.

     - Somos seres sociais dona Lara. Não há porque querer curar uma ferida sozinha. Com toda certeza a proximidade da sua família e acompanhamento psicológico irão ajudar muito.

     A moça ficou sem expressão, como se estivesse no mundo da lua. E eu precisava acabar com aquilo, antes que a situação ficasse sentimental demais. Se tinha uma coisa que tinha aprendido com sua profissão era que sentimentos devem vir apenas dos clientes.

     - Bom, infelizmente, ou felizmente, estou aqui para tratar de outros assuntos. A senhora sabe que seu marido tinha um seguro de vida? – Ela fez que sim com a cabeça. – A senhora precisa assinar uma papelada que eu trouxe antes que possamos prosseguir com a transferência dos valores. Preciso que a senhora me forneça seus dados também, junto com uma conta de algum banco credenciado.

     Enquanto ela lia a documentação eu observei da janela da sala dela o jardim. Realmente não dá pra entender o tamanho do vazio que leva alguém a se desfazer da vida daquela forma. Um homem com um excelente emprego, uma família muito bonita, com condições para fazer viagens até internacionais... É realmente uma pena alguém ir tão de repente assim.

     Assim que ela assinou e preencheu os seus dados e da conta, eu agradeci a recepção e disse que a empresa entraria em contato para comunicar o andamento do processo. Ela talvez precisasse ir no banco validar a transferência, mas isso eles também avisariam. Ela me agradeceu, se despediu com um sorriso que eu não tinha visto em nenhum momento daquela visita, fechou a porta e eu parti.

     Passei no banco rapidamente para deixar a papelada, e de lá voltei pra empresa. Em mais um dia comum, recebi alguns clientes querendo fazer seguros para suas mansões nos bairros ricos da cidade, tomei bastante café e fiz algumas ligações. No fim do expediente recebi mais ordens do meu chefe, porém ficariam para o outro dia. Naquele dia eu não passaria mais nenhum segundo dentro do escritório. Precisava passar em casa, pois tinha um encontro marcado as oito em ponto.

     Tinha chamado uma moça da natação para sair comigo. Ela tinha uma beleza exuberante, quase poética. A perfeição vinha do interior para o exterior. Se chamava Rebeca. Tinha 25 anos e estava cursando direito. Morava próximo ao centro, pois era onde ficava empresa em que estagiava.

Dois dias antes enquanto estávamos praticando nado borboleta, ela elogiou meu estilo. Respondi que apenas fazia por hobbie. Estar em contato com a água me acalmava. Ela olhou para mim enquanto saia da piscina, dos pés à cabeça. Eu olhei nos olhos dela e dei um sorriso. Ela retribuiu. De lá fomos para o vestiário. Depois de tomar meu banho e trocar de roupa, observei que ela estava sozinha no vestiário feminino, arrumando suas coisas. Não queria parecer um tarado, então antes de entrar perguntei se podia, e ela consentiu.

Conversamos por algum tempo. Ela me contou da história dela, como ela tinha chegado naquela cidade. Alguns problemas familiares a obrigaram a sair de casa e ela acabou, no mesmo período, ganhando uma bolsa pra cursar direito. Aproveitou os dois coelhos e partiu. Apesar do papo estar fluindo ela teve que se despedir pois tinha um trabalho para fazer. Mas quando ela virou de costas pensei que não podia deixar aquela chance passar, então a chamei pelo nome. Quando ela virou para mim novamente eu perguntei se ela não queria conhecer o melhor misto quente da cidade. Ela deu um dos sorrisos mais lindos que já vi na vida, e confirmou. Eu disse o endereço e marcamos para as 8 da noite.

     Ao chegar na mesma cafeteria de sempre pedi ao garçom para separar a mesa do canto, aquela mesma que sempre me sento. Ele prontamente fez com que o canto ficasse pouco iluminado. Me pareceu bem romântico. Tinha combinado com ela às 8 horas. Mas quis chegar um pouco antes para garantir que tudo estaria perfeito.

     Eu sou um cara bastante cético, mas por Deus, quando aquela mulher entrou no bar eu fiquei desnorteado. Podia jurar que estava vendo um anjo. Ela estava usando um vestido preto e uma sobretudo branco por cima, uma bota que subia até quase o joelho junto com uma meia calça preta, e um colar que reluzia às luzes da cafeteria. Seu cabelo loiro na altura dos ombros, e um brinco discreto, porém lindo. Ela estava perfeita.

     A cumprimentei com um beijo no rosto e puxei a cadeira para que se sentasse. Logo que ela se sentou disse:

     - Eu não sabia o porte do local, e agora estou me sentindo chique demais com esse vestido. Você poderia ter me dito que era algo mais simples. – Depois riu, mas realmente dava pra ver que ela estava nervosa e constrangida com a roupa que usava.

     - Você está simplesmente deslumbrante, Rebeca. Eu quem me sinto envergonhado de não estar caracterizado ao seu nível de roupagem. – Eu estava vestido com uma calça jeans preta, uma camiseta e uma jaqueta por cima.

     Pedimos uma taça de vinho para cada, para abrir o apetite e tirar a timidez de um primeiro encontro. Depois de uma taça de vinho e alguns minutos de conversa ela acabou esquecendo sobre a roupa. A cafeteria a noite era um local muito bom para encontros. Pouco movimentada e muito discreta. Ao mesmo tempo que o clima de lá não era tão sério como o de um restaurante.

     Ela pediu o tão famigerado misto quente, e eu a acompanhei. Após provar o primeiro pedaço ela elogiou muito. Disse que era realmente o melhor misto quente que já tinha comido na vida. Acompanhado de um belo cappuccino, ela deliciou-se com o misto e pediu mais um.

     A noite foi tão boa que o tempo pareceu passar mais rápido. E em meio a conversa ela deu vários sorrisos sinceros, riu das minhas piadas, e me contou um pouco mais sobre sua vida. Eu já estava completamente encantado pela garota e ela aparentava corresponder. Talvez por curiosidade, não sei.

     No fim da noite nós já estávamos um pouco alterados e ela me convidou para ir na casa dela. Queria me mostrar um quadro que tinha pintado. Sim, ela era um artista nas horas vagas. Consegue imaginar? Era a mulher dos meus sonhos. Aceitei o convite dela, paguei a conta e então saímos em direção ao seu apartamento.

     Apartamento 401, no quarto andar de um prédio mediano. Ela demorou pra abrir a porta sem conseguir acertar a fechadura. Quando abriu quase caiu tropeçando no tapete. Então disparou rindo da situação e eu a acompanhei. Fechei a porta e levei ela até o sofá para deitá-la. Quando a coloquei no sofá ela me puxou e me beijou. Nossas bocas se encaixaram de uma maneira perfeita. Sentia a intensidade dela. Sabia o que ela queria, e ela sabia o que eu queria também.

     Depois de nos beijarmos no sofá fomos para a cama. Ela disse que preferia com a luz apagada e eu respeitei. A luz da lua entrava pela janela, e confesso que foi uma das cenas mais lindas que eu já vi. O rosto dela próximo ao meu, sendo iluminado apenas pela luz da lua. Na meia luz fizemos amor a noite inteira, sem nos importamos com o outro dia.

     Acordei com a luz do sol batendo em meu rosto. E ela continuava dormindo, como um anjo. Levantei silenciosamente para não acordá-la e fui tomar banho. Após o banho fui fazer um café da manhã. Achei ovos na geladeira e os fritei. Esquentei leite e fiz café também. Ela guardava pães de forma no armário. Era simples, mas para mim estava perfeito.

     Quando estava passando para o quarto dela, para acordá-la, encontrei outro quarto com uma porta entreaberta. Vi que era o quarto onde guardava as pinturas. Não consegui segurar a curiosidade e entrei. Havia alguns quadros expostos, e alguns ainda em fase de produção. Um deles aparentava ter acabado de ser finalizado. Cheguei mais perto para ver esse último. Era a pintura de uma ponte, pelo que pude perceber. E um homem na beirada, como se estivesse prestes a pular. Foi então que comecei a perceber semelhanças e lembrei das descrições do suicídio daquele rapaz do dia anterior.

     “Testemunhas disseram que ele estava andando normalmente e do nada passou pelo parapeito e se jogou. Ainda disse algumas palavras antes de pular, mas ninguém estava próximo o suficiente para ouvir”. Era o que comentaram algumas testemunhas.

     Balancei a cabeça e pensei “Isso não faz o menor sentido. É apenas uma pintura de alguém qualquer. Talvez até haja inspiração na trágica cena, mas vamos lá Victor. O que isso teria haver com o assassinato?”

     Foi então que eu fui observar os outros quadros pintados por ela. Um segundo quadro era de um incêndio em um prédio. “Um homem ateou fogo em si mesmo e depois correu até um botijão de gás. Foi uma cena trágica”. Lembrei ter ouvido falar na empresa umas três semanas atrás.

     O próximo quadro era de um homem em um quarto com pinturas. Então eu fiquei confuso. O quarto era exatamente igual ao dela. “O que diabos eu estou vendo?” me perguntava, confuso. Não entendia aquilo de maneira alguma. Como ela pintou aquela exata cena que só estava acontecendo agora. E quando passei para o próximo quadro me desesperei. Era um homem na mesma sala caído no chão e com muito sangue em volta do corpo.

Foi aí então que senti uma dor tremenda nas costas. Algo penetrando meu corpo. Uma faca muito afiada. Logo após uma dor maior ainda um pouco abaixo do ombro. Esbravejei de dor, e me ajoelhei no chão. Quis olhar para trás, para ver quem tinha feito isso, mas não tive reação. A pessoa me empurrou de encontro ao chão e lá mesmo eu fiquei. Deitado. E a única cena que conseguia enxergar era um quadro mostrando a cena da cafeteria. Eu e Rebeca aos risos. As roupas iguais às que a gente usou. Meus olhos foram se fechando, minha respiração se esvaindo, e novamente mais uma morte sem explicação.


Devaneios

O teto solar se abre. Daqui de baixo as estrelas São tão pequenas quanto nossa esperança, De que esse mundo aqui embaixo Algum dia t...