Por: Juan Sousa
Sentei-me próximo a janela que ficava virada para o cruzamento.
Gostava de tomar meu café enquanto observava as pessoas passando na rua.
Daquela janela já tinha presenciado muitas coisas. Desde casais loucamente
apaixonados a assassinatos. Aquele beco sempre reservava surpresas.
Naquela manhã em especial nada de
interessante aconteceu. Tomei meu café com um misto quente. O melhor da cidade,
sem dúvidas. E depois segui para o centro, onde trabalhava. Aqueles
arranha-céus gigantescos por onde passava todos os dias hoje me pareciam
comuns. Diferente de quando cheguei na cidade, acreditando que eu poderia mudar
o mundo.
Sou de uma cidade pequena, e querendo ou
não, quando chegamos na cidade grande, sentimos o baque cultural. As pessoas
aqui são mais frias, apesar de tentarem não ser. Todo mundo te estende a mão,
mas sempre querendo algo em troca. Sabe aquele sentimento de “não confie em
ninguém”? Você acaba criando depois de um tempo.
Um dia ao sair do trabalho esbarrei em uma
moça. Ela disse estar perdida na cidade, não sabia onde estava nem como chegava
no hotel em que estava hospedada. Eu pedi desculpas e disse que não podia
ajudá-la. Meses atrás saiu nos jornais que golpes assim estavam acontecendo.
Infelizmente posso estar negando ajuda a alguém que realmente precisa por conta
de alguns desgraçados que tiram proveito da bondade das pessoas. Demorei mas
consegui me adaptar a esse sistema.
Ao chegar no trabalho encontrei com meu
superior no elevador. Ao cumprimenta-lo ele já veio com as cobranças diárias.
- Victor, não sei bem o porquê veio mais
cedo hoje mas parece que estava adivinhando. Preciso que faça um serviço para
mim. Um homem se atirou da ponte, preciso que cuide do caso. O seguro dele vai
para a família. Ele tem mulher e filha, e você sabe muito bem que eu não gosto
de dar esse tipo de notícia.
Quem gostava, não é mesmo? Esse desgraçado
só pode ter problemas. Minha vontade era de mandar ele ir catar coquinho.
- Sem problemas patrão, estou as suas
ordens. Mas preciso sair pelo menos na mesma hora de sempre. Tenho um
compromisso hoje à noite.
- Você tem um compromisso com essa firma também,
Victor. Lembre-se disso. Fui eu quem colocou você aqui dentro.
O desgraçado adorava jogar na minha cara. E
antes de eu ter tempo de responde-lo a porta do elevador abriu e ele saiu
apressadamente.
Eu trabalhava em uma agência de seguros.
Normalmente cuidava do setor imobiliário. Porém meu superior adorava me
incumbir de outras funções. Passei na copa e já peguei uma xícara de café.
Nossa, como eu adorava café!
Após pegar o endereço do homem que havia se
suicidado com a secretária do chefe, passei na minha sala para deixar meu casaco
e logo parti para resolver o B.O. Quanto mais cedo eu fizer isso, mais cedo eu
consigo sair do trabalho.
O sujeito tinha 35 anos. Era bombeiro
militar, tinha bons antecedentes, não apresentava nenhum problema psicológico,
não havia relatado nenhum tipo de problema que vinha sofrendo... O motivo do
suicídio era um mistério. Mas isso também não é da minha alçada. Precisava
apenas pegar as assinaturas da mulher do sujeito e levar até o banco para a
transferência dos valores.
Ao chegar na casa dele, a esposa me recebeu
com um olhar de tristeza profunda. Me contou que não dormiu mais do que 2 horas
por noite depois do ocorrido, e que sua filha passara a maior parte do tempo
com os pais do falecido marido. Ela não
estava com condições de cuidar da menina. E apesar de não ser da minha alçada,
não tinha como não se solidarizar com a situação. Perder um ente tão próximo
assim deve ser um baque psicológico muito grande.
Enquanto ela me servia uma xícara de café
perguntei se já tinha procurado ajuda psicológica.
- Sim, logo após o acontecimento eu busquei
ajuda. Mas você sabe como é. Leva um tempo até nos adaptarmos com a ideia. E
apesar da ajuda profissional, nós temos que nos curar sozinhos.
- Somos seres sociais dona Lara. Não há
porque querer curar uma ferida sozinha. Com toda certeza a proximidade da sua
família e acompanhamento psicológico irão ajudar muito.
A moça ficou sem expressão, como se
estivesse no mundo da lua. E eu precisava acabar com aquilo, antes que a
situação ficasse sentimental demais. Se tinha uma coisa que tinha aprendido com
sua profissão era que sentimentos devem vir apenas dos clientes.
- Bom, infelizmente, ou felizmente, estou
aqui para tratar de outros assuntos. A senhora sabe que seu marido tinha um
seguro de vida? – Ela fez que sim com a cabeça. – A senhora precisa assinar uma
papelada que eu trouxe antes que possamos prosseguir com a transferência dos
valores. Preciso que a senhora me forneça seus dados também, junto com uma
conta de algum banco credenciado.
Enquanto ela lia a documentação eu observei
da janela da sala dela o jardim. Realmente não dá pra entender o tamanho do
vazio que leva alguém a se desfazer da vida daquela forma. Um homem com um
excelente emprego, uma família muito bonita, com condições para fazer viagens
até internacionais... É realmente uma pena alguém ir tão de repente assim.
Assim que ela assinou e preencheu os seus
dados e da conta, eu agradeci a recepção e disse que a empresa entraria em
contato para comunicar o andamento do processo. Ela talvez precisasse ir no
banco validar a transferência, mas isso eles também avisariam. Ela me
agradeceu, se despediu com um sorriso que eu não tinha visto em nenhum momento
daquela visita, fechou a porta e eu parti.
Passei no banco rapidamente para deixar a
papelada, e de lá voltei pra empresa. Em mais um dia comum, recebi alguns clientes
querendo fazer seguros para suas mansões nos bairros ricos da cidade, tomei
bastante café e fiz algumas ligações. No fim do expediente recebi mais ordens
do meu chefe, porém ficariam para o outro dia. Naquele dia eu não passaria mais
nenhum segundo dentro do escritório. Precisava passar em casa, pois tinha um
encontro marcado as oito em ponto.
Tinha chamado uma moça da natação para sair
comigo. Ela tinha uma beleza exuberante, quase poética. A perfeição vinha do
interior para o exterior. Se chamava Rebeca. Tinha 25 anos e estava cursando
direito. Morava próximo ao centro, pois era onde ficava empresa em que
estagiava.
Dois dias antes enquanto estávamos praticando nado borboleta,
ela elogiou meu estilo. Respondi que apenas fazia por hobbie. Estar em contato
com a água me acalmava. Ela olhou para mim enquanto saia da piscina, dos pés à
cabeça. Eu olhei nos olhos dela e dei um sorriso. Ela retribuiu. De lá fomos
para o vestiário. Depois de tomar meu banho e trocar de roupa, observei que ela
estava sozinha no vestiário feminino, arrumando suas coisas. Não queria parecer
um tarado, então antes de entrar perguntei se podia, e ela consentiu.
Conversamos por algum tempo. Ela me contou da história dela,
como ela tinha chegado naquela cidade. Alguns problemas familiares a obrigaram
a sair de casa e ela acabou, no mesmo período, ganhando uma bolsa pra cursar
direito. Aproveitou os dois coelhos e partiu. Apesar do papo estar fluindo ela
teve que se despedir pois tinha um trabalho para fazer. Mas quando ela virou de
costas pensei que não podia deixar aquela chance passar, então a chamei pelo
nome. Quando ela virou para mim novamente eu perguntei se ela não queria
conhecer o melhor misto quente da cidade. Ela deu um dos sorrisos mais lindos
que já vi na vida, e confirmou. Eu disse o endereço e marcamos para as 8 da
noite.
Ao chegar na mesma cafeteria de sempre pedi
ao garçom para separar a mesa do canto, aquela mesma que sempre me sento. Ele
prontamente fez com que o canto ficasse pouco iluminado. Me pareceu bem
romântico. Tinha combinado com ela às 8 horas. Mas quis chegar um pouco antes
para garantir que tudo estaria perfeito.
Eu sou um cara bastante cético, mas por
Deus, quando aquela mulher entrou no bar eu fiquei desnorteado. Podia jurar que
estava vendo um anjo. Ela estava usando um vestido preto e uma sobretudo branco
por cima, uma bota que subia até quase o joelho junto com uma meia calça preta,
e um colar que reluzia às luzes da cafeteria. Seu cabelo loiro na altura dos
ombros, e um brinco discreto, porém lindo. Ela estava perfeita.
A cumprimentei com um beijo no rosto e
puxei a cadeira para que se sentasse. Logo que ela se sentou disse:
- Eu não sabia o porte do local, e agora
estou me sentindo chique demais com esse vestido. Você poderia ter me dito que
era algo mais simples. – Depois riu, mas realmente dava pra ver que ela estava
nervosa e constrangida com a roupa que usava.
- Você está simplesmente deslumbrante,
Rebeca. Eu quem me sinto envergonhado de não estar caracterizado ao seu nível
de roupagem. – Eu estava vestido com uma calça jeans preta, uma camiseta e uma
jaqueta por cima.
Pedimos uma taça de vinho para cada, para
abrir o apetite e tirar a timidez de um primeiro encontro. Depois de uma taça
de vinho e alguns minutos de conversa ela acabou esquecendo sobre a roupa. A
cafeteria a noite era um local muito bom para encontros. Pouco movimentada e
muito discreta. Ao mesmo tempo que o clima de lá não era tão sério como o de um
restaurante.
Ela pediu o tão famigerado misto quente, e
eu a acompanhei. Após provar o primeiro pedaço ela elogiou muito. Disse que era
realmente o melhor misto quente que já tinha comido na vida. Acompanhado de um
belo cappuccino, ela deliciou-se com o misto e pediu mais um.
A noite foi tão boa que o tempo pareceu passar
mais rápido. E em meio a conversa ela deu vários sorrisos sinceros, riu das
minhas piadas, e me contou um pouco mais sobre sua vida. Eu já estava completamente
encantado pela garota e ela aparentava corresponder. Talvez por curiosidade,
não sei.
No fim da noite nós já estávamos um pouco
alterados e ela me convidou para ir na casa dela. Queria me mostrar um quadro
que tinha pintado. Sim, ela era um artista nas horas vagas. Consegue imaginar?
Era a mulher dos meus sonhos. Aceitei o convite dela, paguei a conta e então
saímos em direção ao seu apartamento.
Apartamento 401, no quarto andar de um
prédio mediano. Ela demorou pra abrir a porta sem conseguir acertar a
fechadura. Quando abriu quase caiu tropeçando no tapete. Então disparou rindo
da situação e eu a acompanhei. Fechei a porta e levei ela até o sofá para
deitá-la. Quando a coloquei no sofá ela me puxou e me beijou. Nossas bocas se
encaixaram de uma maneira perfeita. Sentia a intensidade dela. Sabia o que ela
queria, e ela sabia o que eu queria também.
Depois de nos beijarmos no sofá fomos para
a cama. Ela disse que preferia com a luz apagada e eu respeitei. A luz da lua
entrava pela janela, e confesso que foi uma das cenas mais lindas que eu já vi.
O rosto dela próximo ao meu, sendo iluminado apenas pela luz da lua. Na meia
luz fizemos amor a noite inteira, sem nos importamos com o outro dia.
Acordei com a luz do sol batendo em meu
rosto. E ela continuava dormindo, como um anjo. Levantei silenciosamente para
não acordá-la e fui tomar banho. Após o banho fui fazer um café da manhã. Achei
ovos na geladeira e os fritei. Esquentei leite e fiz café também. Ela guardava
pães de forma no armário. Era simples, mas para mim estava perfeito.
Quando estava passando para o quarto dela,
para acordá-la, encontrei outro quarto com uma porta entreaberta. Vi que era o
quarto onde guardava as pinturas. Não consegui segurar a curiosidade e entrei.
Havia alguns quadros expostos, e alguns ainda em fase de produção. Um deles
aparentava ter acabado de ser finalizado. Cheguei mais perto para ver esse
último. Era a pintura de uma ponte, pelo que pude perceber. E um homem na
beirada, como se estivesse prestes a pular. Foi então que comecei a perceber
semelhanças e lembrei das descrições do suicídio daquele rapaz do dia anterior.
“Testemunhas disseram que ele estava
andando normalmente e do nada passou pelo parapeito e se jogou. Ainda disse
algumas palavras antes de pular, mas ninguém estava próximo o suficiente para
ouvir”. Era o que comentaram algumas testemunhas.
Balancei a cabeça e pensei “Isso não faz o
menor sentido. É apenas uma pintura de alguém qualquer. Talvez até haja
inspiração na trágica cena, mas vamos lá Victor. O que isso teria haver com o
assassinato?”
Foi então que eu fui observar os outros
quadros pintados por ela. Um segundo quadro era de um incêndio em um prédio.
“Um homem ateou fogo em si mesmo e depois correu até um botijão de gás. Foi uma
cena trágica”. Lembrei ter ouvido falar na empresa umas três semanas atrás.
O próximo quadro era de um homem em um
quarto com pinturas. Então eu fiquei confuso. O quarto era exatamente igual ao
dela. “O que diabos eu estou vendo?” me perguntava, confuso. Não entendia
aquilo de maneira alguma. Como ela pintou aquela exata cena que só estava
acontecendo agora. E quando passei para o próximo quadro me desesperei. Era um
homem na mesma sala caído no chão e com muito sangue em volta do corpo.
Foi aí então que senti uma dor tremenda nas costas. Algo
penetrando meu corpo. Uma faca muito afiada. Logo após uma dor maior ainda um
pouco abaixo do ombro. Esbravejei de dor, e me ajoelhei no chão. Quis olhar
para trás, para ver quem tinha feito isso, mas não tive reação. A pessoa me
empurrou de encontro ao chão e lá mesmo eu fiquei. Deitado. E a única cena que
conseguia enxergar era um quadro mostrando a cena da cafeteria. Eu e Rebeca aos
risos. As roupas iguais às que a gente usou. Meus olhos foram se fechando,
minha respiração se esvaindo, e novamente mais uma morte sem explicação.