setembro 02, 2023

Devaneios

O teto solar se abre.

Daqui de baixo as estrelas

São tão pequenas quanto nossa esperança,

De que esse mundo aqui embaixo

Algum dia tenha solução para seus problemas.


Os sábios dizem coisas

Que eu não consigo entender.

Será a sina do homem

Buscar propósito onde ninguém vê?


O filme passa na tela.

Carros na avenida.

Pessoas conversando.

Vidas se entrelaçando.

Luzes da academia.


Me vejo novamente tendo devaneios.

As estrelas começam a dançar no céu

Como em uma folha de papel,

E o tempo passando como um flash.


Naquele tempo os robôs

É quem dominavam as salas de aula.

Ensinavam para as crianças,

Que não entendiam sua linguagem.


Voltei a imaginar um mundo igualitário.

O teto solar sumiu.

Há milhões de anos atrás

Um homem batia um pedaço de pau

Na carne de algum animal.


Ele olhou para mim

E tentou se comunicar.

Mas ele não entendia minha linguagem.

Não sabia falar.

Achou que eu era um invasor.

E o mesmo que fazia com a carne,

Tentou fazer comigo.


Tentei abrandar a situação

Mas ele não quis entender.

Veio em minha direção

E eu fui obrigado a correr.


Impressionante o nosso escárnio

Na vida em sociedade.

Falo agora para os membros

De todas as idades.


Não deixeis que se influenciem

Pela tela da televisão.

Saiam na rua e vejam o mundo

Coberto de hipocrisia.


E se toda filosofia vem do homem

O que fazemos aqui?

Propósito buscamos

No infinito do espaço

Sem ao menos sabermos

O porquê de existir.

[Dom Juan]

julho 17, 2023

A Porta Vermelha

 



    O ano era 1935. Eu já estava ficando velho, mas aparentemente bem de saúde. Ainda trabalhava no meu escritório de projetos. Passei a vida inteira achando que os sonhos só serviam quando estávamos acordados. Quando sonhávamos dormindo era apenas um delírio da nossa mente, criado pela nossa total imersão enquanto estávamos em descanso. E eu não estava tão errado assim.

    Até que um belo dia eu tive um sonho um tanto quanto intrigante. Eu aparecia em frente a escada de uma casa que levava ao primeiro andar. O andar térreo, onde eu estava logo no início do sonho, era completamente órfão de iluminação. A única coisa que se enxergava era a escada, com seu corrimão de madeira na esquerda e à direita estava uma parede, cheia de quadros vazios, sem representação alguma.

    A iluminação ao longo da escada parecia indicar o caminho. Eu subia a passos lentos. E quando chegava no primeiro andar via um corredor à esquerda, com várias portas. As paredes eram verdes, e as portas das laterais eram brancas. E no fim do corredor estava uma porta vermelha.

    A porta vermelha me intrigou em um primeiro momento, mas eu resolvi abrir a primeira porta à direita. Ao adentrar, me encontrei em um jardim muito florido, alguns monumentos com arquitetura grega, e uma brisa extremamente agradável. Depois de algum tempo curtindo a brisa suave eu acordei.

    Continuei minha vida. Fui trabalhar, conviver com minha família e com meus amigos. Passaram alguns meses antes de eu ter o sonho novamente. A mesma escada, com quadros vazios. O mesmo corredor. As mesmas portas. Novamente a famigerada porta vermelha me chamou atenção, mas dessa vez eu resolvi entrar na primeira porta à esquerda.

    Um parque de diversões, muito animado, cheio de atrações, pessoas sorrindo e brincando, muitas famílias felizes, algodão doce e várias outras coisas nostálgicas para mim. Novamente, no ápice da plenitude, eu acordei.

    Dessa vez eu não demorei tanto a ter o sonho novamente. Algumas semanas e lá estava eu de novo, no corredor, encarando a porta vermelha de longe. Cheguei mais próximo dela. E quanto mais me aproximava, mais ficava difícil eu caminhar. Como se a gravidade ficasse mais forte. Me mantive firme na caminhada, até que uma das portas à direita abriu e alguém me puxou para dentro.

    Olhei em volta e estava em um supermercado vazio. O silêncio reinava entre os alimentos enlatados e empacotados. Eu andei pelos corredores do supermercado e nada vi. Nenhum ser humano. A iluminação do lugar foi se apagando aos poucos e eu logo corri para a porta de saída. Fechada. Peguei no trinco e balancei. Nada aconteceu.

    Olhei em volta e vi um extintor de incêndio. Arranquei-o da parede e tentei quebrar a porta de vidro. Uma batida. As luzes começaram a se apagar atrás de mim. Duas batidas. Um barulho surgiu pelas minhas costas. Senti o desespero tomar conta de mim. Três batidas. O barulho ficou ensurdecedor e eu senti uma presença atrás de mim. Meus pelos arrepiaram-se. Quarta batida. Eu acordo.


#sonhos #delírios #meiaidade #conto

Se quiser continuar lendo sobre os sonhos de Guilherme, siga o link para o wattpad. O capítulo único já foi postado. Boa leitura!

Link: A Porta Vermelha





junho 03, 2023

Aquarela

Sempre que eu lembro de você

Me bate uma saudade

Uma vontade de te ver

Vestida de preto, de azul ou vermelho

Com seu reflexo me fazendo companhia no espelho

 

A flor mais bela, da donzela

O arco-íris, aquarela

A mais bela tela pintada com suas cores

Com seus valores, seus temores

 

O arco-íris ficaria menos bonito

Perdendo algumas de suas cores

Mas para representar você

Eu ofertaria um milhão de flores

 

Você representa a arte

O sol desperta com seu alarde

Fazendo chover, iluminado

Formando a aquarela, o arco-íris

Na mais bela tela, o céu azul

Iluminado como deve ser

O meu olhar reflete tudo o que eu enxergo em você

E um pouco mais...

[Dom Juan]

março 19, 2023

O culto ao deus Jaguar

 



A porta de madeira abriu e todos olharam. A curiosidade sempre bate nesses momentos. As pessoas de dentro do bar viram entrar um homem alto, usando um casaco preto e um chapéu. Tinha uma barba rala, cabelos pretos e um olhar de cansaço. Ele sentou-se numa cadeira do balcão e pediu um whisky sem gelo. A garçonete serviu para ele.

            – Você é novo por aqui, não é? – Perguntou a garçonete.

            – Estou de passagem. – Respondeu o homem, colocando o whisky na garganta.

            O bar era modesto. Tinha seis mesas e um balcão pequeno. Era iluminado por lamparinas feitas com vagalumes. A iluminação fraca somadas com simbologias e totens da cultura nativa deixava o ambiente um pouco macabro. E ao fundo tinha uma janela circular grande de onde dava pra observar o mar.

            Um homem corpulento que estava em uma das mesas levantou e foi até o balcão.

            – Me passe a conta por favor. – Disse o homem corpulento para a garçonete. – Posso saber o que faz por aqui, cidadão? Não o conheço.

            – Estou apenas de passagem. Tenho um trabalho em uma cidade próxima. – Disse o homem, tirando o chapéu e dando uma olhada para o corpulento. Ele era grande como uma porta.

            – Já soube dos desaparecimentos? – Perguntou o homem corpulento.

            – Não. Não soube. Cheguei a pouco na cidade. Está havendo desaparecimentos por aqui? – Seu whisky acabou e ele pediu mais um copo.

            – Nas últimas quatro semanas oito moças desapareceram sem deixar rastros. A última moça a desaparecer estava voltando da casa do noivo para a casa dos pais, mas não chegou a completar o trajeto. – Fez uma pausa enquanto pagava a conta à moça do bar. – Não ouviu mesmo falar sobre isso cidadão?

            – Sinto muito pelo ocorrido amigo, mas eu cheguei na cidade hoje. É a primeira vez que ouço falarem nisso. – Colocou todo o whisky restante pra dentro.

            – Posso saber seu nome, camarada? – O homem corpulento nesse momento se virou para o outro e o indagou.

            – Pode me chamar de Giorgio. Muito prazer. – Giorgio então estendeu a mão ao homem corpulento. – E qual o seu?

            – Trovão é como me chamam por aqui. – Apertou a mão de Giorgio. – Se precisar de uma mãozinha pode sempre contar comigo.

            Giorgio sorriu, colocou o chapéu na cabeça, acenou para Trovão e saiu do bar. Estava chovendo naquele momento. Antes de partir na chuva ele puxou um cigarro, acendeu e deu algumas tragadas observando a cidade a sua volta.

            – A noite sempre nos reserva grandes surpresas. – Comentou para si mesmo. Jogou o cigarro no chão, pisou em cima e partiu.





#conto #asteca #investigação #detetive


Se quiser continuar lendo sobre a aventura de Giorgio, siga o link para o wattpad. Os 2 primeiros capítulos já foram publicados e os demais sairão nas próximas semanas. Boa leitura!

Link: O culto ao deus Jaguar - Juan Sousa - Wattpad










março 18, 2023

E nem

“Organizei a memória em alfabetos”
Eu desorganizei a minha da mesma forma.
Pensando que a memória se torna
Um objeto pessoal do desafeto.

[Dom Juan]

março 05, 2023

O sétimo filho do sétimo filho

Nem me lembro quanto tempo
Passei sentado na cadeira
Estava bem perto da lareira
A sala estava fria
Mas o calor do fogo
Me livrou de uma hipotermia
 
Observei a minha volta
E a sala estava vazia
Mas em um canto dela
Um corpo jazia
 
Chamei-o pelo nome
Parecia com José, meu tio
Ele não me respondia
E deitado no chão
Nenhum movimento fazia
 
Me desatei das amarras
Que me prendiam na cadeira
E observei pela janela
Era dia de lua cheia
 
Meu tio José foi o primeiro filho
O mais velho entre todos
Já Luiz era o caçula
E era cheio de engodo
 
Plantou José, meu tio
Para chamar minha atenção
Mas no lugar de José
Outro homem estava no chão
 
Era mais um de seus engodos
O que ele realmente queria
Era que eu chegasse mais próximo
Do sofrimento de minha tia
Que foi morta pelo seu marido
Uns anos atrás, eu sabia
 
O sétimo filho do sétimo filho se transformou
E apareceu como um vulto na porta
Eu peguei logo as minhas botas
E pulei pela janela
 
O lobisomem me seguiu
Era demasiado veloz
Pois usava quatro patas
E tinha uma sede atroz
 
Logo me acompanhou
E abocanhou meu pescoço
Rezei para que Deus tirasse
A maldição desse pobre corpo
Que destruiu sua própria família
E não demonstrou nenhum remorso
 
A maldição do sétimo filho
Segue sem solução
E eu observo agora
O meu tio abocanhando
Meu corpo deitado no chão.


[Dom Juan]

fevereiro 12, 2023

Ansiedade

Acordei com o coração apertado
Pois você não estava ao meu lado
Achei que tinha sumido
E fiquei com o coração partido
Talvez só pela ideia de lhe perder
Eu tenha me perdido
 
Naqueles minutos seguintes
Sofri como em mil vidas
Poderia ter morrido em instantes
Com a ideia de seguir adiante
Sem ter você aqui comigo
 
Talvez essa angústia no meu peito
Seja assim um sinal de que o sujeito
Dono do meu coração
Tem me tratado com uma falta de respeito
Não estando comigo nessa situação
 
Observando em demasia
Essa situação constrangedora
Onde eu sofri sem necessidade
Pela mulher que me jurou fidelidade
E estava apenas preparando a comida
 
Veja bem a minha falta de maturidade
Que imaginou que essa beldade
Teria me abandonado
 
Mas é apenas o meu receio
De perder esse amor tão lindo
E quando eu pensei que estava indo
Ela já estava voltando, para mim.

[Dom Juan]

Devaneios

O teto solar se abre. Daqui de baixo as estrelas São tão pequenas quanto nossa esperança, De que esse mundo aqui embaixo Algum dia t...