julho 17, 2023

A Porta Vermelha

 



    O ano era 1935. Eu já estava ficando velho, mas aparentemente bem de saúde. Ainda trabalhava no meu escritório de projetos. Passei a vida inteira achando que os sonhos só serviam quando estávamos acordados. Quando sonhávamos dormindo era apenas um delírio da nossa mente, criado pela nossa total imersão enquanto estávamos em descanso. E eu não estava tão errado assim.

    Até que um belo dia eu tive um sonho um tanto quanto intrigante. Eu aparecia em frente a escada de uma casa que levava ao primeiro andar. O andar térreo, onde eu estava logo no início do sonho, era completamente órfão de iluminação. A única coisa que se enxergava era a escada, com seu corrimão de madeira na esquerda e à direita estava uma parede, cheia de quadros vazios, sem representação alguma.

    A iluminação ao longo da escada parecia indicar o caminho. Eu subia a passos lentos. E quando chegava no primeiro andar via um corredor à esquerda, com várias portas. As paredes eram verdes, e as portas das laterais eram brancas. E no fim do corredor estava uma porta vermelha.

    A porta vermelha me intrigou em um primeiro momento, mas eu resolvi abrir a primeira porta à direita. Ao adentrar, me encontrei em um jardim muito florido, alguns monumentos com arquitetura grega, e uma brisa extremamente agradável. Depois de algum tempo curtindo a brisa suave eu acordei.

    Continuei minha vida. Fui trabalhar, conviver com minha família e com meus amigos. Passaram alguns meses antes de eu ter o sonho novamente. A mesma escada, com quadros vazios. O mesmo corredor. As mesmas portas. Novamente a famigerada porta vermelha me chamou atenção, mas dessa vez eu resolvi entrar na primeira porta à esquerda.

    Um parque de diversões, muito animado, cheio de atrações, pessoas sorrindo e brincando, muitas famílias felizes, algodão doce e várias outras coisas nostálgicas para mim. Novamente, no ápice da plenitude, eu acordei.

    Dessa vez eu não demorei tanto a ter o sonho novamente. Algumas semanas e lá estava eu de novo, no corredor, encarando a porta vermelha de longe. Cheguei mais próximo dela. E quanto mais me aproximava, mais ficava difícil eu caminhar. Como se a gravidade ficasse mais forte. Me mantive firme na caminhada, até que uma das portas à direita abriu e alguém me puxou para dentro.

    Olhei em volta e estava em um supermercado vazio. O silêncio reinava entre os alimentos enlatados e empacotados. Eu andei pelos corredores do supermercado e nada vi. Nenhum ser humano. A iluminação do lugar foi se apagando aos poucos e eu logo corri para a porta de saída. Fechada. Peguei no trinco e balancei. Nada aconteceu.

    Olhei em volta e vi um extintor de incêndio. Arranquei-o da parede e tentei quebrar a porta de vidro. Uma batida. As luzes começaram a se apagar atrás de mim. Duas batidas. Um barulho surgiu pelas minhas costas. Senti o desespero tomar conta de mim. Três batidas. O barulho ficou ensurdecedor e eu senti uma presença atrás de mim. Meus pelos arrepiaram-se. Quarta batida. Eu acordo.


#sonhos #delírios #meiaidade #conto

Se quiser continuar lendo sobre os sonhos de Guilherme, siga o link para o wattpad. O capítulo único já foi postado. Boa leitura!

Link: A Porta Vermelha





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